Museu de Zoologia João Moojen
Universidade Federal de Viçosa

Bicho da Vez

Sapo-martelo (Hypsiboas faber)

Cientificamente conhecido como Hypsiboas faber, o sapo-martelo possui esse nome devido a seu coaxar, que lembra um martelo batendo contra lata (Clique aqui para ouvir o canto do sapo-martelo). Contudo, a espécie é uma perereca da família Hylidae, a qual inclui mais de 850 espécies no mundo, caracterizadas por geralmente apresentarem discos adesivos nas pontas dos dedos.

Hypsiboas faber é uma espécie de grande porte, cujos machos possuem de 8,5 a 9,5 cm e as fêmeas atingem de 9,0 a 10,0 cm. Distribui-se do nordeste ao sul do Brasil, principalmente ao longo da Mata Atlântica, também ocorrendo na Argentina e Paraguai.

Indivíduos de sapo-martelo sobre vegetação.

Hábitos, alimentação e reprodução

Hypsiboas faber tem hábitos noturnos e se alimenta principalmente de pequenos invertebrados, embora também possa comer pequenos anfíbios. Devido à pele altamente permeável e à exposição a ambientes aquáticos e terrestres nos diferentes estágios do ciclo de vida, a grande maioria dos anfíbios possui seu período de atividade geralmente restrito à estação chuvosa. Logo, é durante a época das chuvas que o sapo-martelo pode ser facilmente observado vocalizando ou “cantando”, às margens de lagoas e açudes, tanto em áreas abertas como em fragmentos de mata.

Nestes locais os machos geralmente constroem ninhos, moldando o barro e a vegetação no formato de uma pequena piscina ou panela, onde coaxam para atrair parceiras. A fêmea chega ao macho, guiada por seus sinais sonoros e visuais, e faz uma inspeção. Se a piscina construída não possuir as características exigidas pela fêmea, ela abandona o macho sem se reproduzir. Por outro lado, caso a piscina construída lhe agrade, a fêmea toca o macho, que realiza o abraço nupcial (amplexo). Ao final do cortejo, ocorre a oviposição no interior do ninho, quando macho e fêmea liberam na água os seus gametas, que ao se unirem, darão origem aos ovos. Como este processo ocorre fora do corpo da fêmea, é denominado fecundação externa.

O macho se mantém próximo à piscina num comportamento denominado cuidado parental, e pode permanecer por alguns dias protegendo os ovos de predadores e outros machos.São depositados em média de 3.000 a 4.000 ovos pequenos e negros. Deles eclodirão os girinos, que após o alagamento do ninho devido às chuvas, passam a viver no fundo de corpos d'água, alimentando-se de matéria em suspensão, detritos e organismos em decomposição.

Aspectos reprodutivos do sapo-martelo. A) Macho vocalizando dentro da piscina de barro. B) Abraço nupcial do macho com a fêmea no interior da piscina.

Macho de sapo-martelo cuidando dos ovos depositados na piscina de barro.

No verão seguinte, os girinos tornam-se maiores e passam por uma metamorfose, quando nascem os membros e a cauda começa a reduzir até desaparecer. Durante esse estágio os filhotes também são conhecidos como imagos.

Além de coaxar dentro da piscina, os machos podem vocalizar na vegetação que circunda poças e lagoas, assim como dentro d'água em locais rasos. Porém a oviposição ocorrerá sempre dentro das piscinas. Eles também são territorialistas, realizando disputas corporais quando um macho invade o território de outro. Devido a isso, em inglês, algumas espécies do gênero Hypsiboas (incluindo o sapo-martelo) são conhecidas popularmente como gladiator frogs (rãs-gladiadoras).

Após o período reprodutivo, com a chegada da estação mais seca e com menos chuvas, os sapos-martelo procuram abrigo em ambientes de mata.


Imago de sapo-martelo em processo de metamorfose

 

Assita ao vídeo da disputa corporal entre dois macho de sapo-martelo (Autoria Júlia Toledo Santos).

Vocalizações

O repertório dos coaxos de Hypsiboas faber é muito bem documentado. Além do canto de anúncio, utilizado para atrair a fêmea, existem cantos territoriais, os quais são emitidos por um macho com intuito de afastar outro macho que tenha invadido seu território. Outro canto que geralmente podemos ouvir é o chamado canto agonístico, caracterizado por coaxos altos, emitidos em resposta à perturbação ou contra predadores em potencial. A função mais provável do canto agonístico é amedrontar (ou surpreender) predadores, ou até mesmo atrair um segundo predador, que capture aquele que tenta devorar o sapo-martelo!

 

O sapo-martelo em Minas Gerais e em Viçosa

Também conhecida como sapo-marteleiro, sapo-ferreiro e bate-lata, Hypsiboas faber é uma espécie comum na Mata Atlântica de Minas Gerais, e não se encontra inserida em nenhuma categoria de ameaça de extinção.

Em Viçosa, o sapo-martelo é facilmente encontrado entre os meses de setembro a março, quando se reproduz na região. O canto de anúncio dos machos pode ser ouvido à noite em diversos locais, como a Mata do Paraíso, o Horto Botânico da UFV e a Mata da Biologia, além de brejos e cursos d'água na área urbana, como o ribeirão São Bartolomeu.

Apesar de não estar ameaçado de extinção, devemos destacar a importância do sapo-martelo, assim como outras espécies de anfíbios na manutenção da biodiversidade. O uso de agrotóxicos, e mesmo outros poluentes, assim como o desmatamento em locais onde vive o sapo-martelo e tantos outros sapos, rãs e pererecas, pode extingui-los localmente. Com isso pode haver um grande aumento de mosquitos, pragas de plantações e vetores de doenças, assim como a falta de alimento para outros animais maiores, já que os anfíbios podem servir de presas para ele. Se não preservarmos os anfíbios como o sapo-martelo, a natureza estará em desequilíbrio.

Você sabia?

Sapos, rãs e pererecas são denominações populares para caracterizar um anuro. De uma forma geral, chamamos de sapos os anfíbios que possuem a pele áspera coberta por glândulas e verrugas. As rãs, por sua vez, são as espécies que apresentam a pele lisa e vivem em ambientes aquáticos (muitas delas são utilizadas na alimentação humana, a exemplo a rã-touro e a rã-manteiga). Já as pererecas são animais de pele muito fina que geralmente possuem hábito arborícola, graças à presença de discos adesivos (ventosas) na ponta dos dedos.

Como diferenciar sapos, rãs e pererecas?

Referências Bibliográficas

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Diego J. Santana

Biólogo (CRBio 70099-04 P) e Mestrando em Biologia Animal

Museu de Zoologia João Moojen