Museu de Zoologia João Moojen
Universidade Federal de Viçosa

Bicho da Vez

Traíra (Hoplias malabaricus)

A fauna de peixes (ictiofauna) de água doce do Brasil é muito diversificada, contando com cerca de 2.600 espécies que ocorrem exclusivamente neste tipo de ambiente. Dentre estes peixes, o grupo dos Ostariophysi é um dos mais diversos, formado por espécies que possuem uma estrutura que liga a bexiga natatória ao sistema auditivo, amplificando a captação das ondas sonoras subaquáticas: o “aparato Weberiano”. Os Ostariophysi se dividem em cinco ordens, das quais três ocorrem em nosso país: Characiformes (lambaris, pacus, traíras, entre outros), Gymnotiformes (ituí-cavalo, poraquê, sarapó e tuvira) e Siluriformes (bagres e peixes-de-couro).

A ordem Characiformes ocorre na África e nas Américas, possuindo mais de 1.600 espécies. A família Erythrinidae é um pequeno grupo de Characiformes, com apenas três gêneros, popularmente conhecidos como jejús (Hoplerythrinus e Erythrinus), trairões, traíras ou lobós (Hoplias).

Dentre as 12 espécies atualmente conhecidas do gênero Hoplias, uma das que possui maior distribuição geográfica é Hoplias malabaricus, conhecida popularmente como traíra ou traíra-preta. É encontrada em todas as bacias hidrográficas da América do sul, com exceção da área transandina e dos rios da Patagônia. Esta espécie tem corpo alongado e cilíndrico, coberto por escamas ciclóides, e uma cabeça alargada, com boca ampla. Sua nadadeira caudal é arredondada e apresenta pontos escuros. Seu corpo tem coloração marrom dourado, eventualmente com manchas escuras, mas este é um caráter que pode variar de acordo com a idade. Sua mandíbula é maior que a maxila e apresenta dentes fortes, cônicos e de tamanhos diversos. O palato (céu da boca) tem duas fileiras de dentículos cônicos em forma de “V”. Quando adulto, Hoplias malabaricus chega a alcançar até 50 cm de comprimento e atinge massa de aproximadamente 1kg.

A) Exemplar de Hoplias malabaricus, do Rio Pelotas, Rio Grande do Sul. B) Trairão Hoplias sp. pescado no Uruguai.

Sendo que a traíra atinge apenas meio metro de comprimento, como existem relatos de captura de exemplares muito maiores que isto? Na verdade, trata-se apenas de uma confusão com outros peixes do mesmo gênero, os trairões, como Hoplias aimara e H. macrophthalmus, que podem chegar a 1 metro de comprimento e pesar 20 Kg! Além do tamanho avantajado (mas que pode confundir os leigos quando o peixe ainda é jovem), os trairões possuem a língua lisa e a sínfise mandibular em forma de “U”, enquanto as traíras têm a língua com dentículos e a sínfise mandibular em forma de “V”.

Sendo que a traíra atinge apenas meio metro de comprimento, como existem relatos de captura de exemplares muito maiores que isto? Na verdade, trata-se apenas de uma confusão com outros peixes do mesmo gênero, os trairões, como Hoplias aimara e H. macrophthalmus, que podem chegar a 1 metro de comprimento e pesar 20 Kg! Além do tamanho avantajado (mas que pode confundir os leigos quando o peixe ainda é jovem), os trairões possuem a língua lisa e a sínfise mandibular em forma de “U”, enquanto as traíras têm a língua com dentículos e a sínfise mandibular em forma de “V”.

Vista ventral da cabeça do trairão Hoplias curupira (A) e da traíra Hoplias malabaricus (B). Note a sínfise mandibular (em destaque) em forma de “U” no trairão e “V” na traíra.

Hábitos e alimentação

A traíra é um peixe bem adaptado a ambientes lênticos, isto é, de água parada, embora também seja encontrada em rios de pequeno e grande porte. É também uma espécie com baixa necessidade de oxigênio para respiração, o que lhe permite sobreviver em ambientes pouco oxigenados, sendo este um dos fatores que explicam sua grande capacidade de dispersão.

Na fase larval alimenta-se de plâncton (planctófaga) e quando adulta é essencialmente uma predadora de peixes (ictiófaga), com baixa voracidade e grande resistência a períodos de jejum. Tem atividade noturna, e é uma caçadora de espreita, fato que lhe rende a fama de “preguiçosa” entre pescadores. Entre suas presas na fase adulta estão lambaris, peixe-rei e cará, bem como inúmeros outros peixes de pequeno tamanho, que são engolidos inteiros. Os dentes têm principalmente o papel de impedir que a presa escape. Porém, quando capturada, a traíra pode morder, causando ferimentos com seus dentes afiados. O nome “traíra”, aliás, significa “que arranca a pele” em tupi-guarani.

Crustáceos e insetos também fazem parte da alimentação da traíra, que assim como outros peixes possuem habilidade de mudar de dieta e de hábitos alimentares em resposta à variações sazonais e diárias na disponibilidade de alimento.

Traíra predando um lambari (Astyanax sp.).

Reprodução

Hoplias malabaricus não realiza piracema. Sua atividade reprodutiva é acentuada nos meses de setembro e outubro, apesar de desovar várias vezes ao longo do ano (considerada uma adaptação de peixes neotropicais que reduz a competição pelo local de desova e alimento para as larvas). Esta traíra é uma espécie territorial, e as fêmeas constroem ninhos em águas com vegetação submersa, depositando seus ovos em pequenas depressões com cerca de 20 cm de profundidade. Após fertilizá-los, o macho cuida dos ovos por alguns dias até que as larvas eclodam e evadam para a vegetação submersa.

A fecundidade média de uma população estudada de Hoplias malabaricus foi estimada em 7.875 ovócitos vitelinados (maduros e em maturação) a serem postos durante o período reprodutivo.

Traíras em aquário.

A traíra em Minas Gerais e em Viçosa

Hoplias malabaricus está distribuída em todas as bacias hidrográficas de Minas Gerais. Além dela, outras três espécies de Hoplias são nativas do Estado: H. brasiliensis, H. intermedius e H. microcephalus. Contudo, o trairão Hoplias lacerdae, nativo das bacias dos rios Ribeira do Iguape e Uruguai, foi introduzido no Estado e também é encontrado hoje em Minas Gerais, o que pode acarretar em desequilíbrio nos ecossistemas aquáticos.

Em Viçosa há registros na natureza apenas de Hoplias malabaricus, que pode ser encontrada nas lagoas da UFV, e ao longo do Ribeirão São Bartolomeu.

Você sabia?

Estudos genéticos mais aprofundados sobre a diversidade das traíras apontam que Hoplias malabaricus na verdade é um complexo de espécies, com base principalmente em diferenças cromossômicas. Pesquisadores já identificaram sete citótipos distintos (2n=39 a 2n=42), que além de número variam também quanto à morfologia dos cromossomos e sistema cromossômico sexual. Isso quer dizer que aquilo que hoje chamamos de Hoplias malabaricus pode na verdade ser sete espécies distintas! A resolução deste problema será muito importante, inclusive para questões ligadas à conservação das traíras.

 

Os sete citótipos distintos do complexo Hoplias malabaricus. Quadrados indicam os cromossomos sexuais.

Referências Bibliográficas

Barbieri, G. 1989. Dinâmica da reprodução e crescimento de Hoplias malabaricus (Bloch, 1794) (Osteichthyes, Erythrinidae) da represa do Monjolinho, São Paulo/SP. Revista Brasileira de Zoologia 6(2): 225-233.

Buckup P. A.., N. A. Menezes e M. S. Ghazzi. 2007. Catálogo das espécies de peixes de água doce do Brasil. Rio de Janeiro: Museu Nacional. 195p.

Bertollo L. A. C., G. G. Born, J. A. Dergam, A. S. Fenocchio e O. A. Moreira-Filho. 2000. Biodiversity approach in the Neotropical fish Hoplias malabaricus. Karyotypic survey, geographic distribution of cytotypes and cytotaxonomic considerations. Chromosome Research 8(7): 603-613.

Froese, R. e D. Pauly. 2009. FishBase. World Wide Web electronic publication (www.fishbase.org). Version (10/2009).

Loureiro, V. E. e N. S. Hahn. 1996. Dieta e atividade alimentar da traíra, Hoplias malabaricus (Bloch, 1794) (Osteichthyes, Erythrynidae), nos primeiros anos de formação do reservatório de Segredo-PR. Acta Limnologica Brasiliensia 8: 195-205.

Oyakawa, O. T. e G. M. T. Mattox. 2009. Revision of the Neotropical trahiras of the Hoplias lacerdae species-group (Ostariophysi: Characiformes: Erythrinidae) with descriptions of two new species. Neotropical Ichthyology 7(2): 117-140.

Reis R. E., S. O. Kullander e C. J. Ferraris-Jr.. 2003 Check list of the freshwater fishes of South and Central America. Porto Alegre: EDIPUCRS. 742 p.

 

Pierre Rafael Penteado
Biólogo e Mestrando em Biologia Animal
Laboratório de Genética Ecológica e Evolutiva – UFV Campus Rio Paranaíba