Museu de Zoologia João Moojen
Universidade Federal de Viçosa

Bicho da Vez

Boipeva-de-Merrem (Xenodon merremii)

Doze espécies de serpentes são atualmente agrupadas pelos cientistas no gênero Xenodon, que se distribui do México ao longo das Américas Central e do Sul, a leste dos Andes. No Brasil, nove espécies são registradas, e a boipeva-de-Merrem, Xenodon merremii, é uma delas. Esta serpente ocorre das Guianas à Argentina, em ambientes abertos, tanto naturais quanto alterados pela ação humana, estando presente em boa parte do território brasileiro.

Algumas espécies do gênero Xenodon. A) Xenodon meremii. B) Xenodon neuwiedii. C) Xenodon pulcher.

A boipeva-de-Merrem é uma espécie não-peçonhenta (assim como a maioria das serpentes de nosso país), que atinge cerca de um metro de comprimento. Sua coloração geralmente apresenta tons amarelados, mas há grande variação (polimorfismo) ao longo de toda a área de ocorrência da espécie. Um detalhe importante é que os desenhos de suas escamas muitas vezes lembram os de serpentes peçonhentas como as jararacas e a cascavel, o que confunde o predador. A esta característica damos o nome de mimetismo.

Exemplos de polimorfismo em Xenodon merremii. Todos os espécimes são procedentes de Fronteira, Minas Gerais.

Hábitos e alimentação

A boipeva-de-Merrem é uma espécie terrícola e de atividade diurna. Alimenta-se basicamente de anfíbios anuros, especialmente sapos (gênero Rhinella), sendo imune ao veneno produzido por eles. Como não possui peçonha nem realiza constrição (ato de se enrodilhar em torno da presa, matando-a por asfixia), a boipeva-de-Merrem simplesmente devora seu alimento vivo!

O nome Xenodon significa em grego “dentes estranhos”, provavelmente uma referência aos dentes alongados que essas serpentes possuem no fundo da boca. Como as espécies de Xenodon não são peçonhentas, esses dentes grandes não são usados para inocular veneno, mas acredita-se que tenham outra importante função: perfurar pulmões! Quando estão ameaçados, os sapos inflam seus pulmões com ar, parecendo maiores do que realmente são e ficando mais difíceis de serem engolidos. Os longos dentes posteriores das Xenodon parecem então ser usados para perfurar os pulmões dos anfíbios.

A boipeva-de-Merrem e as demais Xenodon possuem um comportamento defensivo em comum, também presente em alguns outros grupos de serpentes: quando ameaçadas, achatam o corpo contra o solo, o que as faz parecer maior do que realmente são, intimidando possíveis predadores. É esta a origem do nome “boipeva”, que na língua tupi significa “cobra-chata”. É por isto também que em alguns locais, Xenodon merremii é conhecida por nomes como “cobra-achatadeira”, “cobra-correia” e “cobra-tapete”.

Apesar de não ser peçonhenta, Xenodon merremii é uma serpente relativamente agressiva, que pode desferir botes e morder, o que assusta as pessoas. Esta espécie também costuma escancarar a boca quando se sente ameaçada, intimidando seus agressores. Este comportamento a leva a ser temida por muitas pessoas, que creem (erroneamente) se tratar de uma serpente perigosa, dando-lhe nomes como “capitão-do-campo” e “capitão-do-mato”.

A) Xenodon merremii engolindo um sapo da espécie Rhinella granulosa. B) Comportamento defensivo de Xenodon merremii, achatando o corpo e escancarando a boca.

Reprodução

Estudos conduzidos com populações do nordeste, sudeste e sul do Brasil indicam que a reprodução de Xenodon merremii aparentemente varia ao longo de sua ampla distribuição. No nordeste e sudeste, o ciclo reprodutivo se estende do outono à primavera, enquanto que no sul, vai do fim do inverno ao fim da primavera ou início do verão. As fêmeas podem colocar de 4 a 44 ovos.

 

Homenagens

O epíteto específico merremii é uma homenagem do pesquisador alemão Johann Georg Wagler, que descreveu a espécie (na época chamada Ophis merremii) em 1824, ao também naturalista e conterrâneo Blasius Merrem.

Desde 1972, Xenodon merremii vinha sendo chamada de Waglerophis merremii. Waglerophis (“serpente de Wagler”) era uma clara homenagem à Johann G. Wagler. Após novas pesquisas sugerirem que a boipeva-de-Merrem não apresentava diferenças suficientes para ser incluída em um gênero próprio (Waglerophis), ela voltou a ser considerada uma Xenodon.

Desenho da descrição original de Xenodon merremii (na época chamada de Ophis merremii), publicada em 1824. Note que a serpente foi ilustrada enquanto engolia um anfíbio.

A boipeva-de-Merrem em Minas Gerais e em Viçosa

É provável que Xenodon merremii ocorra em áreas abertas de todo o estado de Minas Gerais. Em Viçosa, esta espécie vem sendo encontrada em chácaras, no campus da UFV, e em outros tipos de formações abertas. Há indícios de que a vegetação original de Viçosa na época da chegada dos primeiros colonos era composta apenas por florestas, sem áreas abertas naturais. Se isto for verdade, é possível que Xenodon merremii tenha chegado à região após os primeiros ciclos de desmatamento, vinda de áreas próximas naturalmente sem florestas, ou também desmatadas.

Você sabia?

Johann Georg Wagler nasceu em Nuremberg, Alemanha, em 1800. Embora nunca tenha estado no Brasil, descreveu muitas espécies de animais do nosso país (em especial serpentes e aves), a partir de exemplares coletados por outros naturalistas, como Johann Baptist von Spix e Karl Friedrich Philipp von Martius, dos quais foi assistente em Munique (Alemanha). Dentre as espécies descritas por Wagler, destaca-se, por exemplo, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), extinta na natureza. Wagler morreu jovem, devido a um tiro acidental ocorrido enquanto caçava, em 1832.

Johann Georg Wagler.

Referências Bibliográficas

Bérnils, R. S. 2009. Brazilian Reptiles – List of Species. Sociedade Brasileira de Herpetologia (http://www.sbherpetologia.org.br/checklist/repteis.htm).

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Pizzatto, L., R. Jordão e O. A. V. Marques. 2008. Overview of Reproductive Strategies in Xenodontini (Serpentes: Colubridae: Xenodontinae) with New Daya for Xenodon neuwiedii and Waglerophis merremii. Journal of Herpetology 42(1): 153-162.

Vanzolini, P. E. 2004. Episódios da Zoologia Brasílica. São Paulo: Hucitec. 212 p.

Vanzolini, P. E., A. M. M. Ramos-Costa e L. J. Vitt. 1980. Répteis das caatingas. Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro. 161 p.

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Vitt, L. J. e L. D. Vangilder. 1983. Ecology of a Snake Community in Northeastern Brazil. Amphibia-Reptilia 4: 273-296.

 

Henrique Caldeira Costa
Biólogo (CRBio 57322/04-D) e Mestrando em Biologia Animal
Museu de Zoologia João Moojen