Museu de Zoologia João Moojen
Universidade Federal de Viçosa

Bicho da Vez

Preguiça-de-garganta-marrom (Bradypus variegatus)

As preguiças, ou bichos-preguiça são mamíferos exclusivos das Américas Central e do Sul. Atualmente, existem seis espécies, das quais apenas uma, Bradypus pygmaeus, não ocorre no Brasil, estando restrita à Isla Escudo de Veraguas, na costa do Panamá.

As preguiças são divididas pelos cientistas em dois gêneros: Choloepus (duas espécies) e Bradypus (quatro espécies). A diferença básica entre estes dois grupos está nas mãos: o primeiro tem dois dedos em cada mão, e o segundo grupo tem três. Por isso também são chamadas de “preguiças-de-dois-dedos" e “preguiças-de-três-dedos”.

Algumas espécies de preguiça atuais: A) Preguiça-de-garganta-marrom (Bradypus variegatus); B) Preguiça-real (Choloepus hoffmani); C) Preguiça-de-coleira (Bradypus torquatus) .

Bradypus variegatus, a preguiça-de-garganta-marrom ou preguiça-marmota ocorre em diversas localidades entre Honduras, na América Central e boa parte da América do Sul, até o sudeste do Brasil. Originalmente, habitava também o Paraná e o nordeste da Argentina, porém parece ter sido extinta nestas regiões.

Este curioso animal tem em média 4 Kg de massa e 60 cm de comprimento. Seu corpo é coberto por pêlos longos, grossos e ondulados, exceto na face, onde são mais curtos e finos. O nome específico variegatus (que significa variegado / de várias cores, em Latim), reflete a coloração da pelagem, com tons de marrom-claro a amarelado, às vezes com diversas manchas. Na face, pêlos escuros formam uma “máscara”, que vai dos olhos às orelhas. Sim, preguiças têm orelhas! Porém, elas ficam escondidas sob a densa pelagem. Os machos possuem um diferencial: a região central das costas tem uma pelagem curta e escura, envolta por pêlos amarelados.

Seu nome comum, “preguiça-de-garganta-marrom”, se deve justamente ao fato dessa região do corpo ter coloração amarronzada. Esta é, inclusive, uma das características que ajudam a diferenciar esta espécie da “preguiça-de-garganta-amarela” (Bradypus tridactylus), que vive no norte da América do Sul.

A cauda de Bradypus variegatus é bem curta, com cerca de 5 cm. Os braços são maiores que as pernas, e os dedos possuem longas garras. Uma curiosidade é o número de vértebras cervicais (do pescoço). Enquanto a maioria dos mamíferos possui sete (até mesmo a girafa, com seu enorme pescoço), as preguiças do gênero Bradypus possuem oito ou nove vértebras cervicais. Graças a isso, elas são capazes de girar a cabeça em até 270º!

Todas as preguiças – e também os tatus e tamanduás, seus parentes mais próximos – apresentam ainda outra peculiaridade: suas vértebras lombares possuem articulações adicionais, ausente nos demais mamíferos. A esta característica os cientistas deram o nome de xenartria (do grego xenon = estranho + arthros = articulação), incluindo estes animais num mesmo grupo, chamado Xenarthra.

Macho de Bradypus variegatus. Note a pelagem distinta no meio das costas, característica do sexo masculino.

Hábitos e alimentação

As preguiças recebem este nome pela sua vagareza, um reflexo do seu baixíssimo metabolismo. Até o nome genérico Bradypus faz referência a isso (do grego Bradus = lento + pous, podos = pé). Como compensação ao baixo metabolismo e à baixa temperatura corporal, as preguiças tomam sol durante o dia, aquecendo o corpo. Além disso, elas dormem cerca de 20 horas por dia!

Bradypus variegatus pode apresentar atividade tanto diurna quanto noturna. Assim como todas as demais espécies de preguiças atuais, vive em regiões florestadas, tem hábitos arborícolas e é herbívora, alimentando-se de brotos e principalmente folhas. Os dentes não possuem esmalte e crescem sem parar, adaptados ao hábito de mastigar alimentos abrasivos que os desgastam constantemente. A dieta principal da preguiça-de-garganta-marrom são plantas da família Moraceae, da qual fazem parte árvores como a figueira, gameleira e o mata-pau. Existe uma crença de que as preguiças se alimentam principalmente de folhas de embaúba (Cecropia), o que não é verdade. O fato é que é muito mais fácil vermos uma preguiça sobre uma embaúba do que em árvores com mais galhos e folhagem mais densa.

Como são muito lentas, as preguiças não fogem dos predadores, mas os enganam! Sua baixa mobilidade, somada à coloração de seus pêlos, contribuem para uma boa camuflagem em meio à vegetação das florestas neotropicais. Esta camuflagem é ainda mais reforçada pelas algas que frequentemente crescem sobre sua pelagem, dando algumas vezes ao animal uma cor esverdeada. Acredita-se também que a preguiça possa lamber estas algas, adquirindo mais nutrientes.

Engana-se quem pensa que a vida de uma preguiça se passa toda sobre as árvores. Elas descem ao solo para defecar e urinar! Mas isso só ocorre cerca de uma vez por semana – mais um reflexo do baixo metabolismo desses mamíferos. Quando precisam se deslocar entre duas árvores distantes, há também a necessidade de descer ao chão. E, quem diria, as preguiças são ótimas nadadoras! Não é raro vê-las nadando em rios. Contudo, elas parecem não se aventurar em águas salgadas, talvez pela movimentação das ondas.

 

Reprodução

As preguiças são solitárias, encontrando-se apenas na época da reprodução. Os machos têm testículos internos. A gestação dura entre quatro e seis meses. O filhote já nasce com pêlos, mama por três a quatro semanas, e já na primeira semana de vida começa a comer folhas. Permanece agarrado à mãe por cerca de seis meses, e depois é deixado por ela, que parte para outro território, o que evita competição com sua própria prole.

Fêmea de Bradypus com seu filhote.

A preguiça-de-garganta-marrom em Minas Gerais e em Viçosa

Bradypus variegatus parece estar bem distribuída pelas florestas remanescentes em Minas Gerais. Contudo, a contínua devastação das matas pode levar esta preguiça a figurar na lista de espécies ameaçadas do nosso Estado, caso medidas conservacionistas não sejam tomadas.

Em Viçosa, há registro oficial da preguiça-de-garganta-marrom na Mata do Paraíso, havendo possibilidade de sua ocorrência em outros fragmentos florestais. O horto botânico da UFV abriga um indivíduo, mas vê-lo é um verdadeiro desafio! Muita gente duvida que realmente haja uma preguiça por lá!

Você sabia?

Embora existam atualmente apenas seis espécies de preguiças na natureza, no passado, a diversidade deste grupo foi bem maior. Havia inclusive preguiças gigantes, de hábitos terrestres e mais de três metros de altura! Estes colossos foram extintos há cerca de 11 mil anos. Mas os cientistas ainda não chegaram a um consenso se a causa principal de seu desaparecimento foram mudanças climáticas ou a caça excessiva por parte dos primeiros humanos que habitaram as Américas. No Museu de Ciências Naturais da PUC-Minas, em Belo Horizonte, é possível ver esqueletos desses seres fantásticos em exposição.

Réplica do esqueleto de Megatherium, uma preguiça terrestre gigante.

Referências Bibliográficas

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Henrique Caldeira Costa
Biólogo (CRBio 57322/04-D) e Mestrando em Biologia Animal
Museu de Zoologia João Moojen