Museu de Zoologia João Moojen
Universidade Federal de Viçosa

Bicho da Vez

Vira-bosta (Molothrus bonariensis)

As aves formam um grupo muito rico quanto à diversidade de espécies. No Brasil, já são conhecidas mais de 1.800 espécies de aves, sem previsões desse número se estabilizar. Historicamente, este é um dos grupos de animais mais estudados, o que resultou em uma gama de informações de relevância para o entendimento de suas características comportamentais e biológicas. A família Icteridae, componente da Ordem Passeriformes, chama a atenção por ser constituída por aves significativamente inteligentes e com diversas peculiaridades.

Os Icterídeos são aves de pequeno a médio porte (em média entre 15 e 50 cm). Muitos deles possuem a plumagem colorida e é comum o contraste dessas cores com o preto. Há várias espécies em que é possível fazer a distinção sexual por tal característica, mas, independentemente disso, os machos são maiores que as fêmeas, salvo poucas exceções.

Esta família possui espécies terrestres (que passam a maior parte do tempo no chão, voando pouco) e arborícolas (que executam grande parte de suas atividades diárias nas copas das árvores), cujo habitat são florestas, áreas abertas ou encharcadas, como brejos. A voz da maioria dessas aves é melodiosa; os cantos das espécies dos gêneros Icterus (corrupiões) e Gnorimopsar (graúnas) estão entre os mais belos do país! Por consequência, acabam sendo alvo de criadores que, em sua maioria, mantém esses animais de maneira ilegal.

Conhecido popularmente como vira-bosta, chopim, gaudério ou maria-preta, Molothrus bonariensis é um pássaro comumente confundido com a graúna, melro ou pássaro-preto (Gnorimopsar chopi), tão procurada por criadores. De fato, há certas semelhanças morfológicas entre essas espécies. Mas tendo um olhar mais atencioso, é possível perceber algumas diferenças.

Molothrus bonariensis tem o bico mais curto e mede em torno de 20 cm, enquanto Gnorimopsar chopi chega a 24 cm. Em M. bonariensis, a plumagem dos machos apresenta um tom de azul metálico a preto – de acordo como as penas recebem luz – enquanto a da fêmea tem um tom de preto fosco. Já em G. chopi, macho e fêmea são negros. Os cantos do vira-bosta e da graúna também são diferentes, assim como diversos comportamentos. Acesse os links canto do vira-bosta (Molothrus bonariensis) e canto do pássaro-preto (Gnorimopsar chopi) para ouvir o canto das duas aves.

 

A) Macho de Molothrus bonariensis; B) Fêmea de Molothrus boanriensis e C) Gnorimopsar chopi.

Hábitos e alimentação

O vira-bosta possui hábito gregário, ou seja, vive em bandos, mesmo na época reprodutiva. É considerado uma ave residente (não realiza migrações), mas promove deslocamentos diários, partindo do local de dormida para o sítio de alimentação, podendo se deslocar por extensas áreas. Pode viver em matas, mas é visto principalmente em áreas abertas modificadas pelo homem, como campos de cultura e pastos.

Uma característica interessante desta ave é a habilidade de usar instrumentos para capturar alimentos. O nome popular “vira-bosta”, inclusive, é decorrente do seu hábito de revirar fezes de animais à procura de insetos e suas larvas, geralmente com o uso de uma alavanca formada por pequenos ramos partidos pelo pisoteio do gado. Além de insetos, frutos e grãos também compõem a dieta de M. bonariensis. Contudo, dependendo da época do ano e da oferta de recursos alimentares a alimentação pode variar até entre indivíduos.

 

Reprodução

A característica mais marcante da espécie é o hábito reprodutivo. Molothrus bonariensis é uma ave parasita, pois utiliza do cuidado parental de outras aves para o seu benefício. A fêmea de vira-bosta se aproveita de algum momento de distração da vítima e deposita seus ovos no ninho da ave parasitada. Já foi registrado um mesmo ninho com até 37 ovos de M. bonariensis! Um detalhe é que não eram da mesma fêmea.

 

 

Indivíduo de tiê-sangue (Ramphocelus bresilius) alimentando filhote de vira-bosta.

O curioso é que na maioria das vezes, os ovos da fêmea de vira-bosta em ninhos alheios não eclodem ou são abandonados. Porém, em alguns casos essa estratégia reprodutiva é tão eficiente que pode colocar em risco a sobrevivência do hospedeiro, como aconteceu com o tiê-sangue (Ramphocelus bresilius) em Ilha Grande, no Rio de Janeiro.

O sucesso reprodutivo do vira-bosta está relacionado à biologia reprodutiva da espécie hospedeira. Fatores como o tempo de incubação e o número de ovos por postura, por exemplo, influenciam diretamente no nascimento dos filhotes. Por tais motivos, o tico-tico (Zonotrichia capensis) é uma das espécies mais parasitadas pelo vira-bosta. A incubação dos ovos de M. bonariensis leva em média um dia a menos que os do tico-tico, o que lhe dá vantagem sobre os filhotes do parasitado. Com isso, o filhote de vira-bosta receberá os cuidados da mãe, mesmo que adotiva, antes dos “irmãos”. Em Viçosa, por exemplo, um estudo indicou que 75% dos ninhos de tico-tico foram parasitados por Molothrus bonariensis!

Filhotes de vira-bosta pedinchando a um tico-tico (Zonotrchia capensis), uma das espécies mais parasitadas.

Os ovos de vira-bosta podem apresentar a forma oval e redonda e a casca ter brilho ou ser fosca. As cores variam em tons de vermelho e verde, coberto por manchas ou pintas. O filhote é um frenético e incessante pedinte de comida. Os pais adotivos saem continuamente em busca de alimentos, mesmo depois do filhote ter saído do ninho. Existe ainda o relato de um “filhotão” que continuava com dependência alimentar da mãe adotiva mesmo quando ela já estava em outra postura!

 

O vira-bosta em Minas Gerais e em Viçosa

Por tolerar ambientes alterados pela atividade humana, Molothrus bonariensis possui uma ampla distribuição no Estado, podendo ser registrado em todas as regiões mineiras. Em Viçosa é comumente visto em propriedades rurais.

Você sabia?

Já foram catalogadas mais de 200 espécies de aves cujos ninhos foram alvos do M. bonariensis. Dessas, 58 já foram observadas cuidando de filhotes do vira-bosta. Quanto às demais, os ninhos foram abandonados ou os ovos dos parasitas não obtiveram sucesso. Fazem parte da lista o joão-de-barro (Furnarius rufus), o bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), a lavadeira-mascarada (Fluvicola nengeta), o pássaro-preto (Gnorimopsar chopi) e o lenheiro-da-serra-do-cipó (Asthenes luizae).

Lavadeira-mascarada (Fluvicola nengeta), uma das 200 espécies parasitadas por Molothrus bonariensis.

Referências Bibliográficas

Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO). 2009. Listas das Aves do Brasil. Versão 9/8/2009. Disponível em <http://www.cbro.org.br/CBRO/listabr.htm>. Acesso em 01 de março de 2010.

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Sick, H. 1983. Migrações de aves na América do Sul Continental. Brasília: Instituto Brasileiro de Defesa Florestal – IBDF. Publicação Técnica n° 2 – CEMAVE. 86 p.

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Sigrist, T. 2006. Aves do Brasil: uma visão artística. São Paulo: Avis Brasilis Editora. 672 p.

Teixeira, D. M. 1991. O uso de instrumentos por algumas aves brasileiras. Revista Brasileira de Ornitologia 2: 89-90.

 

Thiago Almeida
Biólogo e Pós-graduado em Estudos Ambientais para o Meio Biótico (PUC-MG)

Colaboração para o Museu de Zoologia João Moojen