Museu de Zoologia João Moojen
Universidade Federal de Viçosa

Bicho da Vez

Tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla)

Os tamanduás estão entre os mamíferos mais estranhos da região neotropical, graças principalmente à sua cabeça alongada, a boca desprovida de dentes e uma língua muito comprida e pegajosa. Existem atualmente quatro espécies de tamanduás: Cyclopes didactylus (tamanduaí), Myrmecophaga tridactyla (tamanduá-brandeira), Tamandua mexicana (tamanduá-do-norte; o único que não ocorre no Brasil) e Tamandua tetradactyla (tamanduá-mirim ou tamanduá-de-colete).

Tamandua tetradactyla é conhecido popularmente como tamanduá-mirim (que significa “tamanduá pequeno” em tupi-guarani), devido ao seu tamanho menor, se comparado ao tamanduá-bandeira. Um indivíduo adulto de Tamandua tetradactyla pesa em torno de sete quilos, apresenta de 45 a 85 cm de comprimento corporal, mais uma cauda com 40 a 65 cm. Os pêlos curtos e densos que recobrem seu corpo têm coloração amarelo pálida com duas faixas enegrecidas que se estedem da região escapular até a porção posterior do animal. Esta coloração faz com que a espécie também seja conhecida como tamanduá-de-colete.

Outra característica interessante do Tamandua tetradactyla são as garras grandes e curvas nos seus membros anteriores. O nome tetradactyla significa “quatro dedos” em grego, uma associação ao número de dedos nas patas dianteiras do animal. Entretanto, nas patas traseiras, a espécie possui cinco dedos, sendo o quinto dedo bem reduzido, com garra pequena e, portanto de difícil visualização.

O tamanduá-mirim ocorre ao longo de quase toda a América do Sul, a leste da Cordilheira dos Andes, da Venezuela ao norte da Argentina e Uruguai. No Brasil, a espécie está presente em praticamente todo o território nacional, ocorrendo nos biomas Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal e Campos Sulinos.Habita desde o interior de florestas a ambientes abertos, de altitudes que variam do nível do mar a 1.600 m de elevação.

 

Espécies de tamanduá conhecidas hoje: A) Cyclopes didactylus (tamanduaí), B) Tamandua mexicana (tamanduá-do-norte), C) Myrmecophaga tridactyla (tamanduá-brandeira), D) Tamandua tetradactyla (tamanduá-mirim ou tamanduá-de-colete).

Hábitos e alimentação

O tamanduá-mirim é ativo principalmente à noite, embora eventualmente possa ser visto durante o dia. Trata-se de uma espécie com hábito arborícola, sendo a sua cauda semipreênsil de grande importância, os pêlos são ausentes no lado inferior e na extremidade da cauda. Essas características auxiliam na hora de o indivíduo se agarrar em algum galho, facilitando a locomoção. Quando não está ativo, costuma descansar no interior de tocas ou ocos de árvores.

Na natureza, a dieta de Tamandua tetradactyla consiste basicamente em insetos sociais, como formigas, cupins e abelhas, cujos ninhos (colônias) podem ser encontrados no chão ou no alto de árvores. Há quem acredite que a palavra “tamanduá” em tupi-guarani signifique “o caçador de formigas”, justamente por causa de sua dieta. Entretanto, é possível ainda que a “tamanduá” queira dizer “cauda de pêlos”, em referência ao rabo longo e peludo de outra espécie, o tamanduá-bandeira.

Para conseguir seu alimento, o tamanduá-mirim faz buracos nos formigueiros e cupinzeiros que encontra, utilizando suas garras. É através dessas aberturas que ele introduz sua língua, que além de ser rígida e comprida, também possui espinhos voltados para trás e recobertos por uma saliva pegajosa, na qual os insetos se grudam. Em um único dia, um tamanduá-mirim pode visitar mais de 50 ninhos de formigas ou cupins, alimentando-se de milhares de insetos!

Tamanduá-mirim ao lado de cupinzeiro, no Pantanal.

Quando se sente ameaçado, o tamanduá- mirim adota uma postura ereta, sob um tripé formado pelas pernas traseiras auxiliado pela cauda. Nesta posição ele faz uso das garras dianteiras para se defender, podendo arranhar e agarrar (o famoso “abraço de tamanduá”) aquele que o agredir.

 

Posição defensiva do tamanduá-mirim.

Reprodução

O tamanduá-mirim é uma espécie que vive solitariamente, encontrando-se com outros indivíduos na época da reprodução, a qual geralmente ocorre no outono. A gestação dura entre 130 e 190 dias, e um único filhote nasce, muito pequeno e frágil, sendo carregado no dorso da mãe por tempo indeterminado, e se separando dela após cerca de um ano de idade. Registros da longevidade de animais em cativeiro, como em zoológicos, dificilmente ultrapassam os nove anos.

 

O tamanduá-mirim em Minas Gerais e em Viçosa

O tamanduá-mirim aparentemente ocorre em todo o estado de Minas Gerais, não sendo considerado ameaçado de extinção. Em Viçosa, a espécie já foi registrada por pesquisadores na Estação de Pesquisa, Treinamento e Educação Ambiental Mata do Paraíso. Poucos anos atrás, um espécime foi encontrado perdido e acuado sobre uma árvore, no centro de Viçosa!

Apesar do tamanduá-mirim não correr risco de extinção atualmente, caça, atropelamentos, ataques de cães domésticos, e principalmente a destruição de habitats naturais são fatores que podem contribuir num futuro próximo para o declínio de suas populações, e até mesmo a sua extinção em algumas regiões.

Você sabia?

Mesmo com o nome comum de tamanduá-de-colete, não são todos os espécimes de Tamandua tetradactyla que apresentam o colete bem definido, formando pelas faixas enegrecidas na região dorsal. Animais da região noroeste do Brasil e parte da Venezuela possuem uma pelagem de coloração densamente acastanhada, marrom ou, simplesmente, apresentam o “colete” fracamente delimitado.

Tamanduá-mirim com padrão de coloração sem colete.

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Raisa Reis de Paula Rodarte
Graduanda em Ciências Biológicas (UFV)

Museu de Zoologia João Moojen